O jornal Boca de Rua é uma publicação impressa trimestral produzida e vendida por pessoas em situação de rua da cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. É um dos projetos da organização não-governamental Alice - Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação.
Este espaço tem como objetivo disponibilizar aos leitores o que não coube na versão impressa, além das entrevistas que foram feitas e que aqui são veiculadas na íntegra.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Outros agressores, outros agredidos

OUTROS AGRESSORES

Além da violência da polícia, existem outras formas de violência praticadas por outras pessoas. Guardas Municipais, seguranças particulares de empresas e até mesmo a população em geral muitas vezes são violentos. É verdade que tem pessoas agressivas pedindo no sinal mas tem motorista que agride também. Já aconteceu de pessoas descerem do carro para ameaçar quem pede. Uns xingam, dizem “Sai de perto do meu carro!” “Não chega perto!”, “Cai fora, vagabundo. Vai trabalhar!”. Falam que os pedintes metem medo. Mas e os que dizem que vão dar um tiro ou tocam o carro por cima dos pedintes não?

Um exemplo: Rua João Alfredo sinaleira do Nacional. O carro parou no sinal vermelho. Vendedores do Boca de Rua foram oferecer jornal e o homem do carro disse: Não compro jornal de vagabundo! Um outro caso aconteceu quando um vendedor do Boca chegou perto de um carro e deu Boa tarde. O motorista começou a gritar: Vai, vai, vai. “Eu disse para ele: Ô meu, não tomou o teu Rodal hoje? E o cara saiu do carro para me agredir”, conta ele.

Vovô está na rua desde os 7,8 anos e lembra que a situação era diferente: Ninguém tinha medo da gente. Os tios dos Opalas, DKWs, Dodges e Fuscas sempre davam uns 10 cruzeiros para a gente”. Hoje fica mais fácil se a pessoa chega com um sorriso. Rogers um dia disse para um motorista: “Hitler ou São Francisco"? O cara desceu do carro e deu um abraço nele.



OUTROS AGREDIDOS


Não são apenas os moradores de rua que sofrem agressões. Outros grupos como profissionais do sexo, travestis, transsexuais e todo o povo da sinaleira: malabaristas, palhaços, vendedores de frutas, santinhos etc. também são desrespeitados. L.L, uma transsexual se sente desrespeitada constantemente pela Brigada. Juntamente com outras três colegasfoi abordada na volta da São Carlos e recolhida por policiais do Nono Batalhão com o fim de "produzir identificação". Os soldados, que deixaram os travestis nas proximidades do Shopping Praia de Belas, justificaram a arbitrariedade como sendo uma atividade rotineira realizada enquanto medida preventiva.
Para as prostitutas também não está fácil. “Nas últimas semanas, parece que a situação está virando para trás. Melhorou depois de que a gente começou a trabalhar e denunciar nos jornais, uns anos atrás. Quase parou. As pessoas tomaram consciência de que a gente está trabalhando. Só que, não sei se é por causa de mudança da direção ou da administração na polícia, começou a voltar como no passado’, conta Janete do Núcleo de Estudos da Prostituição.

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